Há mulheres que passam tanto tempo tentando corresponder ao olhar dos outros que, em algum momento, deixam de saber como enxergam a si mesmas.

Você recebe um elogio.

Alguém diz que você fez um bom trabalho.

Que sua apresentação foi excelente.

Que você está bonita.

Que admira a forma como você cuida das pessoas.

Você sorri.

Agradece.

Mas, por dentro, acontece outra conversa.

"Ela está exagerando."

"Se soubesse como eu realmente sou..."

"Foi só sorte."

"Na próxima vez talvez eu não consiga."

O elogio chega.

Mas parece não encontrar lugar.

Como se existisse algo dentro de você que impedisse aquelas palavras de permanecer.

Talvez você conheça essa sensação.

E talvez ela não apareça apenas diante de elogios.

Ela também surge quando você conquista alguma coisa importante.

Consegue um novo trabalho.

Termina um projeto.

Alcança um objetivo.

Por alguns instantes, sente orgulho.

Logo depois, aparece outra pergunta.

"Será que eu realmente mereço isso?"

A sensação de insuficiência nem sempre desaparece com as conquistas

Existe uma promessa que muitas mulheres fazem a si mesmas.

"Quando eu terminar a pós-graduação..."

"Quando eu emagrecer..."

"Quando eu encontrar um relacionamento..."

"Quando eu ganhar mais..."

"Quando eu me tornar mãe..."

Então, finalmente, vou me sentir suficiente.

Mas o curioso é que, muitas vezes, as conquistas chegam.

E a sensação permanece.

Logo surge outra meta.

Outro padrão.

Outra comparação.

Como se existisse um vazio que nenhum reconhecimento conseguisse preencher.

O olhar do outro começa cedo

Nenhuma mulher nasce acreditando que não é suficiente.

Essa ideia vai sendo construída.

Nas palavras que ouviu.

Nas comparações.

Nas exigências.

Nos silêncios.

Nas expectativas.

Pouco a pouco, aprendemos a imaginar como somos vistas.

E, às vezes, passamos tanto tempo tentando corresponder a esse olhar que deixamos de perguntar quem realmente somos.

Na psicanálise, o modo como nos constituímos passa, inevitavelmente, pelo olhar e pela palavra do outro.

Mas isso não significa que estejamos condenadas a viver apenas em função deles.

A comparação nunca termina

Vivemos cercados por imagens de sucesso.

Nas redes sociais.

No trabalho.

Na família.

Sempre parece existir alguém mais bonita.

Mais organizada.

Mais produtiva.

Mais confiante.

Mais realizada.

Quando transformamos essas imagens em medida do nosso valor, a comparação se torna infinita.

Porque sempre haverá alguém que parece estar um passo à frente.

E viver tentando alcançar esse ideal costuma produzir muito mais cansaço do que satisfação.

Quem você seria sem precisar provar nada?

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis deste ensaio.

Imagine, por um instante, que você não precisasse convencer ninguém de que é inteligente.

Nem competente.

Nem forte.

Nem bonita.

Nem uma boa mãe.

Nem uma boa profissional.

Quem você seria?

O que faria?

Do que abriria mão?

Essa pergunta costuma causar estranhamento.

Porque muitas mulheres passaram anos organizando a própria vida em torno da necessidade de provar seu valor.

A autoestima não é apenas gostar de si

Quando falamos em autoestima, frequentemente pensamos em confiança ou amor-próprio.

Mas a experiência humana é mais complexa.

Há pessoas que parecem muito confiantes e, ainda assim, vivem dependendo da aprovação dos outros.

Outras convivem com dúvidas, mas conseguem sustentar escolhas importantes.

Talvez a questão não seja eliminar toda insegurança.

Talvez seja deixar de fazer da aprovação externa a única medida do próprio valor.

O que muda quando deixamos de buscar uma perfeição impossível?

A análise não ensina alguém a repetir frases positivas diante do espelho.

Ela também não promete que você nunca mais duvidará de si.

O que ela pode oferecer é outra relação com essas dúvidas.

À medida que compreendemos nossa história, algumas cobranças deixam de parecer naturais.

Descobrimos que muitas delas não nasceram conosco.

Foram sendo construídas.

E aquilo que foi construído também pode ser transformado.

Conclusão

Talvez você continue tendo dias de insegurança.

Isso faz parte da vida.

Mas existe uma diferença importante entre conviver com dúvidas e viver acreditando que nunca será suficiente.

A primeira experiência é humana.

A segunda costuma aprisionar.

Talvez valha a pena perguntar, com delicadeza:

De quem é essa voz que insiste em dizer que você precisa fazer mais, ser mais e nunca errar?

Às vezes, essa pergunta marca o início de uma mudança importante.

Não porque todas as respostas aparecem.

Mas porque, pela primeira vez, a cobrança deixa de ser a única voz possível.

Talvez você não encontre todas essas respostas hoje.

Mas existe um lugar onde elas podem começar a ser construídas: na experiência de colocar em palavras aquilo que, durante tanto tempo, precisou ser vivido em silêncio.

Se você deseja iniciar um processo de análise, será um prazer acolher sua história.